Não sou fã de séries femininas. São (quase) sempre histórias superficiais (o amor estilo pastilha elástica e a objectificação constante) e personagens estereotipadas com as quais não me identifico. E foi por isto mesmo que quando tive conhecimento da existência de Girls nem sequer fiz caso e continuei concentrada nas minhas Breaking Bad, Homeland, House of Cards e afins.
Como se à partida o meu preconceito não bastasse, as críticas à série afastaram-me dela ainda mais.
James Franco, actor que aprecio bastante para lá dos seus atributos físicos, foi dos primeiros a opinar de forma depreciativa, num artigo publicado no
Huffington Post. Outros comentários negativos circularam pelas redes sociais e acabei por decidir que não ia perder tempo com a série. E fiz mal.
Há poucas semanas, num dia frio e chuvoso, estava eu embrulhada num forte de mantas a fazer zapping na televisão, quando um programa me fez parar a ginástica no comando. Deixei-me ficar. Era o primeiro episódio de Girls. Vi-o até ao fim e depois quis ver o segundo. Fui à Internet. E depois vi o terceiro. Em poucos dias, acabei as duas primeiras temporadas e, de certa forma, pus de lado o preconceito em relação às séries femininas.
Girls é feminina, sim. Mas é mais do que isso. É uma série para raparigas de vinte e poucos anos que explora os assuntos que realmente as preocupam, num tom moderno, actual e sem recorrer às muletas fáceis que são os sapatos e as malas e a maquilhagem e etc., etc., etc..

Acabar a licenciatura e a insegurança por não se saber o que vai acontecer a partir daí. As expectativas. A procura de emprego. A luta pela independência. As pressões familiares. As amizades que se deterioram. O sexo. O amor. O desencanto que a idade adulta nos provoca. Girls é tudo isto combinado com um humor particularmente inteligente e um
look visual muito atractivo.
Lena Dunham é não só a criadora, argumentista e produtora de Girls, como também a sua protagonista. Hannah, assim se chama a sua personagem, é uma aspirante a escritora e o motor de toda a trama.
Uma jovem que lida com todos os problemas que as jovens da sua idade enfrentam, quer vivam em Nova Iorque, em Lisboa ou em qualquer outra cidade cosmopolita.
O facto de Hannah não ser especialmente bonita e ter alguns quilos a mais tornam-na num elemento de identificação natural: ela é uma de nós.
Claro que o romance faz parte, bem como os desgostos que daí resultam. Mas tudo de uma forma que nos é familiar, sem o glamour que vemos, por exemplo, na famosa "O Sexo e a Cidade".
Há quem diga que Lena Dunham aproveita todos os momentos para aparecer nua e que a sua figura sem roupas é embaraçosa. Sou de opinião diferente. As cenas de nudez de Lena parecem-me verdadeiramente refrescantes no panorama televisivo e hollywoodesco actual pelo facto de ela mostrar todas as suas imperfeições sem pudor, de forma surpreendentemente natural e sem cair no lado gratuito e fácil da questão.
Girls é uma série de raparigas, para raparigas. Mas o seu valor existe para além desta premissa. Sem a estilização dos objectos mundanos em prol de um qualquer sentido universal de beleza ou ideal de vida, Girls é real.