Quem me conhece sabe que um dos meus (piores?) vícios é usar referências da cultura pop para tudo na vida. Dito isto, há uma frase da série "Community" que não me canso de usar. "I can only connect to people through movies" diz Abed, num dos episódios. A verdade é que, em parte, isto assenta-me bem.
Tive a felicidade de conhecer pessoas interessantes que, ao longo do tempo, ficaram minhas amigas mas, excluindo este círculo de pessoas maravilhosas, confesso que é-me bastante difícil aproximar de alguém com quem não tenho interesses em comum. Juro que não é preconceito, muito menos falsa modéstia ou arrogância. É defeito, é feitio. É o que quiserem, mas não é intencional.
Talvez por isso, crio relações de enorme afectividade com personagens, actores, escritores, músicos, cineastas, artistas, humanistas que de alguma forma me influenciam no dia-a-dia. Por terem uma visão do mundo e das coisas idêntica à minha ou por, pura e simplesmente, terem capacidades únicas e geniais que admiro. E assim, sempre que alguém de que gosto, do universo mediático, morre, sinto a sua morte como se fosse a de alguém próximo. Alguém bastante próximo. Oh, sim, que cliché! Culpada.
Até há bem pouco tempo não se falava noutra coisa, mas a verdade é que eu não senti a morte de Eusébio. Nunca o tinha visto jogar antes de ter morrido e nem sequer sou do Benfica. O mesmo aconteceu com Mandela, apesar de ter perfeita consciência da importância de Madiba na História da Humanidade. São coisas diferentes: lamentar a morte de uma personalidade e sentir a sua morte.
Por outro lado, senti a morte de Lou Reed. As canções de Velvet Underground acompanharam-me na minha adolescência. Estiveram lá, para me confortar, nos momentos mais depressivos que todos os 16 anos podem proporcionar.
O mesmo aconteceu com José Saramago. Aí, confesso que verti uma lágrima. Se as músicas de Velvet Undergound funcionaram comigo como calmantes para a alma, os livros do Prémio Nobel foram o oposto: um despertador mental e moral, um gerador de inquietação, desconforto até, que me fez pensar no mundo, para além do meu quintal.
Este domingo morreu Philip Seymour Hoffman. Não posso dizer que tenha sido um choque tão grande como os dois exemplos anteriores mas, mais uma vez, senti esta perda. Admirava-o profundamente quer pelo seu talento inegável quer pelas escolhas que fez ao longo da carreira, num percurso muito ligado ao cinema independente americano. E se disser que um dos meus realizadores preferidos de sempre é o Paul Thomas Anderson, com quem Hoffman trabalhou por diversas vezes, a minha afeição pelo actor americano encerra aqui a sua explicação.
Estranha capacidade esta a de sentir que se é próximo de alguém com quem nunca se teve o menor contacto pessoal, de quem não se conhece nada mais para além da representação que a pessoa projectou para si, no mundo e nos outros.
Aqui, a proximidade não se esgota nas distâncias, nos bairrismos, nos nacionalismos, no domínio social ou profissional mais ou menos comum. É uma proximidade que tem a ver com outro tipo de coisas e todas elas partem de um denominador comum: uma identificação pessoal. Um sentimento de partilha, da ordem dos valores, dos interesses, dos elementos que nos definem, não como cidadãos ou profissionais, mas antes como pessoas.
"I can only connect to people through movies". Não é sempre, mas grande parte das vezes.
"I can only connect to people through movies". Não é sempre, mas grande parte das vezes.

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